segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Brochura datada de Agosto de 1950

Na. Sra. do Socorro

A festividade que se realiza no Bico do Monte, em honra da Virgem do Socorro, evoca-nos o passado e arrasta o nosso pensamento para o futuro grandioso, que há-de irradiar daquele ponto, convertendo a nossa terra em um magnífico centro de turismo.

1. O Passado. Parte Histórica

O Bico do Monte denominava-se Pedra da Águia em 1117, ou seja, ao tempo em que a Rainha D. Teresa concedeu a Carta do Couto de Osselôa, para se instituir aqui uma Albergaria.

Esse notável documento, de que proveio a fundação da nossa terra e é de todos nós conhecido, fala-nos da Pedra da Águia e os diversos autos da demarcação do aro do Couto confirmam, uniformemente, que o Bico do Monte é a antiga Pedra da Águia.

É de supor que, até 1855, o actual Monte do Socorro receberia apenas as visitas dos pegureiros e dos gados que apascentavam pelas encostas e que iam tosando os matos, que delas brotavam, espontâneos e bravios. Também o sítio era propício às feras, que abundavam, como de tudo nos dá conta a Carta do Couto de Osselôa.

Aquele ano, com a calamidade da cólera-morbus, que assolou esta região e o país inteiro, deu início à transformação do Bico do Monte.

Em Outubro de 1855 grassou com grande intensidade, nesta vila, a temerosa epidemia do cólera-morbus, deixando um rasto de desolação e de morte. As famílias que podiam emigrar abandonavam tudo, sendo algumas delas fulminadas durante esse êxodo macabro.
O terror apossou-se de todos e o desvairamento ia até à loucura.

Em tão aflitivo transe, fizeram-se preces, encheram-se os templos e abandonaram-se todos os trabalhos e ocupações para se orar a Deus, a rogar-lhe que extinguisse a epidemia.

Nos lugares de Assilhó, Sobreiro, S. Marcos, Frias, não houve caso algum do cólera-morbus, o mesmo sucedendo na freguesia de Vale Maior. Nesta vila houve 43 óbitos. Anota-se que na Angeja as vítimas foram em número de 98.

Foi então que um grupo de homens fez o voto de erigir uma capela no Bico do Monte, dedicada à Virgem, com a invocação de Senhora do Socorro, se o terrível flagelo nos desamparasse breve; e verificou-se que, desde esse voto, nenhum outro caso ocorreu, o que foi considerado como o primeiro milagre da Senhora do Socorro.

Logo em 1856 se deu começo à construção da capela, que foi concluída em 1857, celebrando-se então imponentes e luzidos festejos, a que se associou uma considerável multidão.

Fundou-se uma confraria própria, com estatutos, e cuja aprovação se requereu em 23 de Outubro de 1858, tendo a assinatura dos seguintes fundadores:

Padre João Fortunato José de Almeida; Padre João António José de Almeida; José Marques Pires; Manuel Luiz Ferreira; Bernardino Marques Vidal; Bento Alvares Ferreira; João Marques Pires; Patrício Luiz Ferreira Tavares Pereira e Silva; João Ferreira da Silva Paulo; José Marques de Lemos; António José Rodrigues; Joaquim Lourenço Mendes dos Santos; Francisco Joaquim da Cruz; José Domingues da Silva; Manuel Inácio da Silva; Joaquim Rodrigues da silva e Manuel José de Bastos. Os dois últimos assinaram de cruz.

No § 1º do art.º 3º desses Estatutos determinava-se que a festividade se realizasse no 4º Domingo de Agosto, mas, por dificuldades várias, fixou-se depois o 1º Domingo depois de 15 de Agosto e, finalmente, estabeleceu-se o 3º Domingo desse mês, dia em que se celebra a festa desde a nossa lembrança.

A título, ainda, de informação histórica, julgamos útil referir o seguinte facto:

No extremo Sul da Avenida, no cimo do Bico do Monte, ponto limite do percurso da procissão, existe um elevado cruzeiro de granito, que assenta sobre um soco, também de granito. Na face Norte desse soco achava-se gravada uma inscrição, que há dias fomos examinar e não conseguimos decifrar.

Esclarecemos que esse soco, com a cruz que o encimava, constituíam o padrão que o Acórdão da Relação de Lisboa, de 27 de Maio de 1629, mandou que se colocasse à entrada da vila, com um letreiro que diga:

AQUI HÁ ALBERGARIA DE POBRES E DOENTES COM CAVALGADURA E AGASALHADO

Esse padrão foi cravado à beira da estrada real, a sul da vila, na rua dos Salgueirinhos e no sítio onde hoje se acha a capela de S. Sebastião. Em 1858 foi levado para o monte da Sra. do Socorro, e há poucos anos mudado para onde já indicámos e se encontra.

Os nossos apontamentos, já publicados, dizem-nos que não foi inteiramente observada a ordem prescrita pelo Acórdão que citámos, porque o letreiro gravado na pedra reza assim:

AQUI COMEÇA ALBERGARIA DE POBRES E PASSAGEIROS DE D. THEREZA

Desejaríamos que os estudiosos se dessem à pachorra de decifrar a aludida inscrição, para nos fixarmos na verdade.

2. O Presente.

Ergueu-se a capela e fez-se a sua inauguração com o entusiasmo que brotava da fé intensa dos que viveram dias de tamanha amargura e anseio, crentes no milagre da Virgem. Havia que prosseguir nas manifestações em honra da Senhora do Socorro, a cuja intercessão recorriam, de ora avante, todos os que vivessem horas aflitivas, para que a sua dor se debelasse.

Nos anos seguintes e em número sempre crescente, os devotos acudiam em romagem de piedoso agradecimento pelas mercês recebidas e trazendo as dádivas em cumprimento de promessas.

Começou então a conhecer-se o Bico do Monte, ficando-se surpreso com o vastíssimo panorama que dele se desfrutava, fosse qual fosse a direcção para onde se alongasse a vista.

Ao poente, os pequenos montes de sal de Aveiro, com a brancura da pureza das almas recolhidas em silêncio, – o Farol da Barra, – as águas do mar, brilhando ao dardejar do sol, estendiam-se pelo horizonte sem limites, até nos darem a sensação de que terminavam onde começava de erguer-se a cúpula do céu. Os canais, a ria com os seus minúsculos barquitos, de velas brancas que o vento inflava e as praias e povoações, parece que não era a inveja pela grandeza com que a Providência nos dotou.

A sul, a dois quilómetros, notavam-se os contornos da nossa vila, os seus edifícios e uma ou outra janela aberta, donde se desprendia o sorriso duma mulher graciosa e quem sabe se o adejar dum lenço em saudação correspondida. Saudação à Virgem…
Distante, destaca-se o Buçaco, mais para nascente o Caramulo, depois as serranias das Talhadas, as do Arestal e mais e mais até chegarmos às planícies do norte, cobertas de pinheirais, eucaliptos em densas matas, intercaladas de povoações caiadas de branco.

O panorama é vasto e tarde despertamos da muda contemplação em que nos extasiamos horas seguidas.

A belíssima poesia do grande poeta Correia de Oliveira e que aqui vai publicada, condensa, magistralmente, o conjunto de maravilhas que podemos encontrar no Bico do Monte.

As encostas do Monte, ali à mão, estavam cobertas de mato agreste, brotando, dentre ele, um outro pinheirito raquítico.

Manteve-se esse estado por largos anos, sendo necessário que houvesse o primeiro impulso para sair do ponto morto em que caíra.

Rasgou-se uma avenida de acesso, – abriu-se uma pequena ruela na encosta para que os veículos mais facilmente alcançassem o ponto cimeiro, – alargou-se o recinto da capela com custosas obras de ampliação e muralhas de suporte, – construiu-se uma escadaria a pequena distância da capela, – estendeu-se muito mais e alargou-se, a estrada ou Avenida destinada ao percurso da procissão, – plantaram-se árvores e cobriu-se o monte de eucaliptos e pinheiros.

Alguma coisa se fez, mas é tudo pouco.

As procissões eram francamente concorridas e a elas nem a população da vila assistia, reservando-se para o arraial da tarde.

No dia seguinte, segunda-feira, era a festa dos moleiros, que o tomavam de sua conta para comezainas fartas.

Em 1915 e 1916 esses costumes modificaram-se, passando os albergarienses a reservar para si, especialmente, a segunda-feira, dia em que a vila se despovoa para se deslocarem ao Bico do Monte, com grandes cestos de víveres, em que predomina o leitão regional.

Também a procissão e as cerimónias religiosas na capela, tomaram, com o Padre Matos, um notável incremento, a ponto tal que o cimo do monte e a capela não comportam os romeiros de longe e que constituem multidão, acrescidos de gente da vila, que se acostumou já a assistir à procissão, em que tomam parte centenas de anjos, todos vindos de promessas à Virgem e em que os cânticos entoados por tão grande mole de crentes, a revelar a sua fé em Deus e afirmarem a sua confiança extrema na bondade divina, sempre propensa ao perdão e ao bem das almas.

A procissão é emocionante, especialmente o adeus à Virgem, que sensibiliza profundamente os mais indiferentes.

Por vezes é tanta gente que constitui a procissão que não é possível estabelecer a ordem, como seria necessário.

Compreende-se a necessidade de se manterem no melhor estado de conservação todas as estradas de ligação ao Monte do Socorro, permitindo que, em qualquer época, seja visitado e admirado. Consideramos isso indispensável.

Acrescentaremos esta nota: - o Estado Maior do nosso Exército mandou construir sobre a capela um pequeno miradouro de observação, reconhecendo, assim, que estava em presença dum magnífico ponto estratégico.

3. O Futuro.

O Pároco, Sr. Padre Francisco Teixeira, com o propósito de obter uma base segura para o aformoseamento do Monte e construção dum Santuário grandioso, encarregou certos arquitectos de elaborarem um projecto de obras vastas. Existe o projecto, embora sem forma definitiva.

Delineiam-se parques, traçam-se escadarias monumentais, indicam-se lagos, etc. O que não existe é dinheiro que baste para qualquer dessas obras.

Cremos que cumpre, primeiro que tudo, explorar as águas abundantes em ponto acessível e que poderia ser fixado por um vedor de confiança. Isso é essencial, tal como as boas estradas.

Lembra-nos, a propósito, que fomos, há dias, ao Monte do Socorro, com vários amigos, que nos haviam informado de que encontraríamos lá o que ainda não conhecíamos. Ao regressarmos e a poucos metros já da via férrea que atravessa a Avenida, passou velozmente a automotora em demanda de Espinho e que nem nos saudou com o menor aviso, ou um mero cumprimento. Confiamos em que a protecção da Virgem do Socorro não falte aos crentes para os livrarem dos apuros dum grave desastre. São os nossos sinceros votos.

Regressando ao futuro.

Entendemos necessário e urgente que se reserve um largo espaço para parque de estacionamento das centenas de veículos que ali afluem. O terreno deve ser vasto e terraplanado.

Não ocultamos a nossa aversão ao eucalipto para arborização definitiva do monte. Árvore para proveito e boa receita, mas com vários inconvenientes. O primeiro denuncia-se já por interceptar a vista do extraordinário panorama que é a melhor recomendação do local. Acresce que é uma árvore feia e que é uma esponja para o terreno onde as raízes se infiltram. Com elas a água desaparece. Há que tosar já os que prejudicam a vista do largo horizonte, bem como os do fim da Avenida, que ocultam a capela aos que por ali transitam.

Indubitavelmente há muita coisa a fazer não só para comodidade atraente dos romeiros, mas para os forasteiros e para a população da vila, que há-de sentir orgulho em recomendar aos seus amigos uma visita ao Bico do Monte, que tantos nos invejam e cobiçam e que nós temos quasi desprezado.

Há-de construir-se o Santuário, pouco depois de se descobrir um manancial de água e da conveniente reparação ds vias de comunicação. Para isso é necessário criar uma robusta fé na Senhora do Socorro e levar essa fé a todas as almas, de modo a encararem a sério o alto valor que representa para a nossa terra o aformoseamento do Monte do Socorro.

Façamos intensa propaganda lá fora e cá dentro; - digamos, como o poeta Correia de Oliveira, que é ali um sanatório e imaginemos que vemos já lá um Hotel de Turismo. Por enquanto é imaginário, mas, mais cedo do que se julga, veremos elevarem-se ali as suas linhas arquitectónicas.

Não olhemos para o passado; - encaremos de frente o futuro, que pertence só aqueles que trabalham, dominados por grande força de vontade e impelidos por um forte entusiasmo pela grandeza de Albergaria.

António de Pinho, Agosto de 1950

(O texto apresentado foi transcrito de uma brochura datada de Agosto de 1950 e assinado por A. de P.) - copiado da página dos Escuteiros de Albergaria

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